top of page
Buscar

Zé Pilintra- do encantado da Jurema ao malandro Urbano

  • Foto do escritor: JOSI CARTOMANTE
    JOSI CARTOMANTE
  • 7 de jan.
  • 3 min de leitura

Zé Pilintra não nasceu somente no Rio de Janeiro.

Essa frase, sozinha, já desmonta boa parte do imaginário popular.

Antes do terno branco, da gravata vermelha e do chapéu panamá, Zé Pilintra já existia como entidade espiritual em um Brasil muito mais antigo, rural, indígena e afro-indígena. Um Brasil onde o sagrado não estava separado da estrada, da mata, da bebida ritual e da palavra falada.

O nome é o mesmo.

Mas o chão é outro.

O Zé Pilintra encantado da Jurema

O primeiro Zé Pilintra surge dentro da Jurema Sagrada, tradição espiritual do Nordeste brasileiro, especialmente em regiões como Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. A Jurema não é uma religião urbana. Ela nasce do encontro entre saberes indígenas, africanos e populares, estruturada em torno dos encantados, espíritos que não são mortos comuns nem santos cristãos, mas forças espirituais ligadas à terra, à mata, às estradas e aos mistérios da vida.

Nesse contexto, Zé Pilintra é mestre, não malandro.

Ele aparece como encantado juremeiro, ligado à cura, ao conselho, à proteção dos pobres e à travessia de caminhos difíceis. Atua com palavra firme, ironia contida e senso profundo de justiça prática. Ele não promete riqueza nem glamour. Ele ensina a sobreviver com dignidade.

O Zé Pilintra da Jurema:

trabalha com ervas, bebida ritual e fumaça

fala pouco, mas direto

orienta decisões difíceis

protege quem vive à margem

cobra postura, não submissão

Não usa roupas elegantes.

Não se apresenta como boêmio.

Não vive de jogo ou trapaça.

Ele é espírito de estrada, de encruzilhada seca, de poeira no pé. Um mestre que ensina como andar no mundo sem se perder dele.

A travessia para o espaço urbano

Com o avanço do século XX, o Brasil muda. O país se urbaniza, a população migra, as tradições se cruzam nos grandes centros, especialmente no Rio de Janeiro. A Umbanda nasce nesse ambiente urbano, tentando organizar espiritualmente um Brasil marcado por desigualdade, exclusão e sobrevivência improvisada.

É nesse cenário que o nome Zé Pilintra atravessa de um mundo para outro.

O arquétipo do malandro carioca — figura real da história social do Rio — se mistura ao nome já conhecido no Nordeste. O malandro não é apenas um boêmio. Ele é o homem que aprendeu a viver num sistema injusto sem ser engolido por ele. Vive da astúcia porque o trabalho formal não o acolheu. Ri porque, se não rir, enlouquece.

Assim nasce o Zé Pilintra malandro urbano, já dentro da Umbanda.

O Zé Pilintra da Umbanda

Na Umbanda, Zé Pilintra não é mestre juremeiro. Ele é entidade da linha da malandragem. Seu campo de atuação muda porque o mundo mudou.

Ele passa a lidar com:

injustiça social

perseguição policial

desemprego

fome

traição

humilhação cotidiana

O terno branco não é vaidade. É símbolo de respeito em um mundo que nega respeito. A gravata vermelha não é luxo. É marca de vitalidade, sangue e coragem. O chapéu não é adorno. É identidade.

Esse Zé Pilintra fala alto, ri, provoca, bebe, joga conversa fora — mas nunca perde o senso de justiça. Ele ajuda quem está caído, mas odeia coitadismo. Cobra atitude, dignidade e responsabilidade.

Ele não ensina a passar por cima dos outros.

Ensina a não ser esmagado.

Por que os dois são cultuados?

Porque, apesar de diferentes, eles respondem à mesma dor social.

O Zé Pilintra da Jurema nasce num Brasil rural esquecido pelo poder.

O Zé Pilintra da Umbanda nasce num Brasil urbano que exclui.

Ambos atuam:

nas bordas da sociedade

junto aos pobres

onde a lei não protege

onde a moral oficial falha

O erro moderno foi tentar fundir os dois como se fossem apenas “roupas diferentes da mesma entidade”. Isso apaga história, território e tradição.

Eles compartilham o nome porque compartilham a função simbólica:

ser ponte entre o sagrado e a vida real.

O que se perdeu no caminho

Quando Zé Pilintra vira apenas fantasia, estereótipo ou personagem de internet, perde-se o essencial. Ele não é entidade para romantização nem para espetáculo. Ele é resultado direto da violência social brasileira e da criatividade espiritual do povo para sobreviver a ela.

O Zé Pilintra juremeiro ensina a caminhar.

O Zé Pilintra malandro ensina a resistir.

Ambos existem porque o Brasil nunca foi gentil com os seus.

E talvez seja por isso que Zé Pilintra continue sendo cultuado. Não porque seja moda. Mas porque, enquanto houver exclusão, sempre haverá necessidade de um espírito que saiba transitar entre a lei e a vida.

Entre a estrada e a cidade.

Entre o sagrado e a sobrevivência.


 
 
 

1 comentário


adriane2464
08 de jan.

Nossa ,adorei a história de Zé Pilintra.

Quanto aprendizado, parabéns

Curtir
  • Whatsapp
  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Instagram Branco

©por Josi Taróloga

bottom of page