
As Bruxas do passado: "Maria Padilha"
- JOSI CARTOMANTE
- 9 de jan.
- 3 min de leitura
O nome verdadeiro de Maria Padilha é María Díaz de Padilla.
Ela nasceu por volta de 1334, no Reino de Castela, na Espanha medieval, em uma família nobre, ligada à corte. María não nasceu à margem da sociedade. Pelo contrário: ela foi criada dentro das regras do poder. E foi justamente por conhecê-las tão bem que se tornou perigosa.
María Díaz de Padilla entrou para a história como companheira do rei Pedro I de Castela, conhecido como Pedro, o Cruel. Mas chamá-la apenas de amante é uma forma conveniente de diminuir seu papel. María não era uma figura passiva. Ela aconselhava o rei, influenciava decisões políticas, interferia em alianças e tinha controle real sobre o acesso ao poder.
No século XIV, isso não era tolerável para uma mulher.
Na mentalidade medieval, uma mulher que exerce influência direta sobre um homem poderoso não é vista como inteligente ou estratégica. Ela é vista como manipuladora. E, rapidamente, como alguém que só pode agir por meio de feitiço.
Ainda em vida, María Díaz de Padilla foi acusada de usar artes ocultas para dominar o rei. Dizia-se que ela o mantinha enfeitiçado, que causava a queda de inimigos políticos e que desorganizava a ordem da corte por meios sobrenaturais. Essas acusações não surgem após sua morte. Elas circulam enquanto ela ainda vivia.
É importante entender isso:
naquele período, “bruxa” não era apenas quem fazia rituais.
Era qualquer mulher que:
exercia poder sem autorização
interferia em decisões masculinas
vivia sua sexualidade fora do casamento formal
não se submetia à moral da Igreja
María reunia todos esses elementos.
Ela morreu jovem, em 1361, provavelmente vítima da peste. Após sua morte, Pedro I declarou publicamente que María havia sido sua esposa legítima em segredo, tentativa de restaurar sua honra. O efeito foi o oposto. A nobreza e a Igreja intensificaram a imagem dela como a mulher que “corrompeu o rei”.
Com o tempo, María Díaz de Padilla deixou de ser apenas uma personagem histórica e se tornou um símbolo negativo construído pelo poder: a mulher que domina, seduz, influencia e, por isso, precisa ser demonizada.
É exatamente por isso que ela entra na série As Bruxas do Passado.
María de Padilla não foi julgada em um tribunal inquisitorial, não foi queimada e não deixou grimórios. Mas foi tratada como bruxa no sentido mais profundo do termo: uma mulher cuja existência desafiava a ordem social, religiosa e política do seu tempo.
Séculos depois, no Brasil, esse símbolo é ressignificado. A Pombagira Maria Padilha não é a mulher histórica literal, mas o arquétipo que nasce dessa condenação: a mulher demonizada por escolher, por desejar e por exercer poder.
María Díaz de Padilla é uma bruxa do passado porque representa todas as mulheres que não precisaram de feitiços para serem acusadas de bruxaria. Bastou existir fora do lugar permitido.
Fontes históricas – María Díaz de Padilla
AYALA MARTÍNEZ, Carlos de.
Pedro I de Castilla y la política del poder.
Madrid: Editorial Sílex, 2006.
RUIZ, Teófilo F.
Spanish Society, 1400–1600.
London: Routledge, 2001. (contexto social e mentalidade medieval sobre mulheres e poder)
SÁNCHEZ ALBORNOZ, Claudio.
La España Musulmana y Cristiana.
Madrid: Espasa-Calpe, 1982.
VALDEÓN BARUQUE, Julio.
Pedro I el Cruel y Enrique de Trastámara.
Barcelona: Editorial Crítica, 2002.
MITRE FERNÁNDEZ, Emilio.
La mujer en la Edad Media.
Madrid: Alianza Editorial, 1988.
DOCUMENTOS DA CORTE CASTELHANA – século XIV
Registros relativos a María Díaz de Padilla e ao reinado de Pedro I de Castela, preservados em arquivos históricos espanhóis (Archivo Histórico Nacional, Madrid).
TRADIÇÃO ORAL E RESSIGNIFICAÇÃO AFRO-BRASILEIRA
Umbanda e Quimbanda – construção simbólica da Pombagira Maria Padilha como arquétipo espiritual feminino demonizado pela moral cristã europeia.



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