
As Bruxas do passado: "María de Lá Candelária"
- JOSI CARTOMANTE
- 7 de jan.
- 2 min de leitura
María de la Candelaria – Quando a fé andina virou heresia
María de la Candelaria viveu no Vice-Reino do Peru, no século XVII, em uma região profundamente marcada pela espiritualidade andina. Diferente da Europa, ali o sagrado não estava separado do cotidiano. A doença, o corpo, a terra e os espíritos faziam parte de um mesmo sistema de compreensão do mundo.
E foi exatamente isso que a colonização tentou destruir.
María era indígena e atuava como curandeira, utilizando ervas, rituais de limpeza espiritual, práticas corporais e invocações ligadas à cosmologia andina. Nada do que fazia era oculto para sua comunidade. Pelo contrário: era procurada, respeitada e necessária. Mas, aos olhos do poder colonial espanhol, isso era um problema grave.
A Inquisição não precisava entender a espiritualidade indígena. Precisava neutralizá-la.
María de la Candelaria foi acusada de feitiçaria porque continuava exercendo práticas tradicionais em um território oficialmente cristianizado. O crime não era um feitiço específico, mas a persistência cultural. Curar fora da Igreja era visto como desafio direto à autoridade espiritual espanhola.
Nos registros inquisitoriais, mulheres como María aparecem descritas como “feiticeiras”, “idólatras”, “enganadoras do povo”. Termos genéricos, repetidos, quase automáticos. O objetivo não era narrar quem ela era, mas enquadrá-la em uma categoria criminal pronta.
A espiritualidade andina era baseada na relação com a terra, com os ancestrais, com as montanhas, com os ciclos naturais. Para o colonizador, isso precisava ser reduzido a idolatria ou pacto demoníaco. O sistema não tolerava mundos espirituais paralelos.
María não foi acusada porque causava dano.
Foi acusada porque mantinha viva uma cosmologia inteira.
Diferente da Europa, onde a bruxa era isolada como indivíduo, nas Américas a acusação tinha um alvo coletivo. Ao punir María de la Candelaria, o poder colonial mandava um recado a toda a comunidade indígena: seus deuses, seus rituais e seus saberes não tinham mais lugar naquele território.
A repressão não precisava ser espetacular. Bastava a ameaça constante, o processo, a vigilância, o medo. A espiritualidade indígena não foi destruída de uma vez. Foi sendo corroída aos poucos, mulher por mulher, ritual por ritual.
María de la Candelaria não virou símbolo oficial.
Não virou santa nem mártir reconhecida.
Virou mais um nome em um processo.
Mas sua história revela algo fundamental: nas Américas, a caça às bruxas foi também uma guerra espiritual contra os povos originários. Uma guerra travada principalmente contra mulheres, porque eram elas que guardavam o saber do corpo, da cura e da continuidade cultural.
María foi acusada de feitiçaria.
Mas o que ela realmente praticava era memória.
E memória, para o colonialismo, sempre foi perigosa.
Fontes:
CERVANTES, Fernando. The Devil in the New World: The Impact of Diabolism in New Spain. Yale University Press, 1994.
SILVERBLATT, Irene. Moon, Sun, and Witches: Gender Ideologies and Class in Inca and Colonial Peru. Princeton University Press, 1987.
GREENLEAF, Richard E. The Mexican Inquisition of the Sixteenth Century. University of New Mexico Press, 1969. (contexto inquisitorial aplicado ao mundo andino)
Arquivos inquisitoriais do Vice-Reino do Peru, século XVII.
(Processos envolvendo mulheres indígenas acusadas de feitiçaria e idolatria)



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