
As Bruxas do passado: "Dominga Álvarez"
- JOSI CARTOMANTE
- 7 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 14 de fev.
Dominga Álvarez – Quando curar virou crime
Dominga Álvarez viveu na Nova Espanha, território que hoje corresponde ao México, no século XVI. Era indígena. E isso, dentro do sistema colonial espanhol, já era suficiente para colocá-la sob suspeita permanente. Mas Dominga carregava algo ainda mais perigoso: conhecimento espiritual ancestral, transmitido fora da Igreja e praticado longe do controle colonial.
Ela foi acusada de feitiçaria pelo Santo Ofício não por realizar algo extraordinário, mas por manter práticas comuns entre os povos originários: cura com ervas, rituais de limpeza espiritual, invocações tradicionais e formas próprias de lidar com doença, azar e sofrimento.
O problema nunca foi a prática em si.
O problema foi quem a praticava.
A Inquisição espanhola, ao se instalar nas Américas, precisou criar um novo inimigo. Diferente da Europa, onde a bruxa era associada ao pacto demoníaco, nas colônias o alvo principal era a espiritualidade indígena, que precisava ser desmantelada para que a catequese funcionasse.
Dominga Álvarez foi enquadrada dentro de um crime que não fazia sentido em seu próprio mundo. O que para ela era saber tradicional, para os inquisidores era superstição diabólica. O tribunal não buscava entender. Buscava reclassificar.
E reclassificar era uma forma de destruir.
Os registros mostram que mulheres indígenas como Dominga eram acusadas de “enganar o povo”, “manter ritos antigos”, “invocar forças proibidas”. O discurso era sempre o mesmo: transformar práticas espirituais coletivas em crime individual, e depois usar esse crime como justificativa para punição, vigilância e silenciamento.
Diferente de Tituba, Dominga não teve espaço para “performar” a narrativa europeia do diabo. Sua espiritualidade não se traduzia facilmente em sabás, pactos ou demônios com nomes cristãos. E isso a tornava ainda mais suspeita. O que não se entende, se elimina.
A acusação contra Dominga Álvarez revela um mecanismo central da colonização: criminalizar a cura indígena para impor dependência espiritual. Quando se destrói o curandeiro, destrói-se a autonomia da comunidade. Quando se cala a mulher que sabe, cala-se o território inteiro.
Dominga não virou símbolo religioso.
Não virou lenda.
Não virou mito folclórico.
Virou um processo.
E como tantos outros processos inquisitoriais nas Américas, seu registro sobrevive mais como instrumento de controle do que como memória da pessoa real. Sabemos pouco sobre seu rosto, sua idade, sua língua, sua história pessoal. Sabemos muito sobre como o poder tentou enquadrá-la.
Ela representa a mulher indígena que foi forçada a escolher entre:
abandonar sua espiritualidade
ou ser tratada como criminosa
Essa não é uma escolha religiosa.
É uma violência estrutural.
Dominga Álvarez não foi acusada por desafiar Deus.
Foi acusada por não abandonar os espíritos de seu povo.
E isso, para a Inquisição, era imperdoável.
Fontes:
GREENLEAF, Richard E. The Mexican Inquisition of the Sixteenth Century. University of New Mexico Press, 1969.
LAVRIN, Asunción. Women, Feminism and Social Change in Argentina, Chile, and Uruguay. University of Nebraska Press, 1995. (contexto inquisitorial e gênero na América Hispânica)
CERVANTES, Fernando. The Devil in the New World: The Impact of Diabolism in New Spain. Yale University Press, 1994.
Arquivos do Santo Ofício da Inquisição da Nova Espanha, século XVI.
(Processos envolvendo mulheres indígenas acusadas de feitiçaria e superstição)
Quando quiser, seguimos com a próxima da ordem: 👉 María de la Candelaria (Andes / Vice-Reino do Peru)



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