Quando todo mundo é iniciado, mas ninguém é preparado!
- JOSI CARTOMANTE
- 4 de jan.
- 2 min de leitura

Tem uma coisa que está acontecendo hoje dentro de muitos centros espirituais que não dá mais pra fingir que é exagero ou perseguição: a iniciação virou negócio. E isso não começa da falta de fé, começa justamente de uma fé mal colocada, misturada com necessidade financeira, vaidade e uma leitura muito rasa do que é responsabilidade espiritual. Muita gente passou a se apresentar como pai de santo, mãe de santo, babalorixá, tatá, dirigente de casa, sem ter preparo real, sem ter passado por processos longos, sem ter sustentação prática do que está fazendo. Aprende um pouco aqui, copia ali, monta um discurso bonito e começa a iniciar pessoas como se estivesse oferecendo um serviço. Quem chega, quase sempre, chega fragilizado, com medo, com a vida desorganizada, procurando ajuda. E aí entra a engrenagem do terror religioso: se não fizer tal fundamento, sua vida não anda; se não iniciar agora, vai piorar; se não pagar isso, aquilo vai se perder. Vai se enfiando fundamento em cima de fundamento, muitas vezes sem saber se aquilo é necessário, se faz sentido para aquela pessoa ou se vai, de fato, funcionar na vida dela. O critério deixa de ser cuidado e passa a ser quanto dá pra cobrar e até onde a pessoa aguenta pagar.
Quando dá errado — porque muitas vezes dá — a culpa nunca volta para quem orientou. A culpa recai sempre sobre quem confiou: não teve fé suficiente, não cumpriu direito, não sustentou. E assim se cria um ciclo de dependência, medo e culpa que prende a pessoa ao templo e ao dirigente. Nas redes sociais isso ficou ainda mais grave. Um monte de gente se fantasia de autoridade espiritual, usa símbolos, palavras fortes, promete solução rápida e iniciação imediata, e muita gente cai em golpe achando que encontrou um caminho sério. O problema não é só financeiro, é humano. São vidas sendo mexidas, emocionalmente e espiritualmente, por pessoas que muitas vezes não sabem o que estão fazendo, mas sabem muito bem o que estão cobrando. Iniciação não foi feita para assustar, para ameaçar ou para segurar alguém pelo medo. Fundamento não é castigo, não é chantagem espiritual. Quem tem chão sabe dizer “ainda não”, sabe orientar sem pressionar, sabe cuidar sem aprisionar. Talvez o que esteja faltando hoje não seja mais iniciação, mais rito ou mais nome espiritual. Talvez esteja faltando ética, responsabilidade e coragem de parar de transformar fé em mercadoria.
J.F.R.C



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