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Quando a história apaga o corpo feminino.

  • Foto do escritor: JOSI CARTOMANTE
    JOSI CARTOMANTE
  • 6 de jan.
  • 2 min de leitura

Quando a História apaga o corpo feminino

A História não apaga tudo.

Ela escolhe o que merece ser visto.

Quando olhamos para reis, generais, papas, filósofos e grandes homens, encontramos nomes, datas, retratos, estátuas, descrições físicas, genealogias inteiras. Sabemos como eles se vestiam, como posavam, como queriam ser lembrados. O corpo masculino foi registrado como símbolo de poder.

Mas quando olhamos para as mulheres que sustentaram comunidades inteiras — curandeiras, benzedeiras, parteiras, feiticeiras, rezadeiras — o corpo desaparece.

Não há rosto.

Não há retrato.

Não há descrição.

Há apenas acusações, processos, registros frios, escritos quase sempre por homens que não queriam preservá-las, mas controlá-las.

No Brasil colonial, isso é ainda mais brutal. As mulheres associadas à feitiçaria eram, em sua maioria, negras, pobres, escravizadas ou socialmente vulneráveis. Seus corpos não eram considerados dignos de memória. Eram corpos de trabalho, de punição, de uso — nunca de representação.

A História não esqueceu essas mulheres por acaso.

Ela apagou.

O apagamento do corpo feminino é um projeto.

Quando não se registra um rosto, apaga-se a humanidade.

Quando não se descreve um corpo, nega-se a individualidade.

Quando não se preserva a imagem, transforma-se a mulher em função: “a feiticeira”, “a benzedeira”, “a suspeita”.

E funções não exigem empatia.

Esse apagamento permitiu que essas mulheres fossem punidas sem comoção, silenciadas sem memória, substituídas por arquétipos convenientes. A bruxa virou caricatura. A curandeira virou superstição. A mulher virou perigo abstrato.

Por isso, quando hoje tentamos imaginar como eram Maria da Conceição, Bárbara dos Prazeres ou Joana Angélica, não estamos “inventando”. Estamos lidando com um vazio construído historicamente. Um vazio deixado de propósito.

As imagens contemporâneas criadas para essas mulheres não são retratos. São tentativas de devolver corpo a quem teve o corpo roubado pela História. Não dizem “foi assim que ela era”. Dizem “ela existiu”.

E isso muda tudo.

Porque dar corpo é dar humanidade.

Dar humanidade é impedir o apagamento completo.

A História tradicional sempre teve medo do corpo feminino quando ele carrega saber. Corpo que cura. Corpo que sabe parir. Corpo que conhece ervas. Corpo que aconselha. Corpo que interfere no destino. Esses corpos não podiam ser celebrados. Precisavam ser vigiados, controlados ou apagados.

Quando a História apaga o corpo feminino, ela não está sendo neutra.

Ela está tomando partido.

Por isso, resgatar essas mulheres hoje não é um exercício de nostalgia nem de romantização espiritual. É um ato político, histórico e ético. É dizer que essas mulheres não foram apenas nomes em processos. Elas respiraram, caminharam, tocaram outros corpos, sustentaram vidas.

Mesmo que a História tenha tentado escondê-las.

E talvez seja justamente isso que mais incomode:

essas mulheres sobreviveram mesmo sem rosto!


J.F.R.C

 
 
 

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©por Josi Taróloga

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