top of page
Buscar

As Bruxas do passado: "Tituba"

  • Foto do escritor: JOSI CARTOMANTE
    JOSI CARTOMANTE
  • 7 de jan.
  • 2 min de leitura

Tituba – A indígena que precisou virar monstro para sobreviver

Tituba entrou para a História como “a bruxa de Salem”. Mas essa frase, repetida até hoje, já começa errada. Tituba não era bruxa no sentido europeu. Não era puritana. Não era inglesa. Não era branca. Tituba era uma mulher indígena, escravizada, arrancada de sua cultura e jogada dentro de um sistema que precisava desesperadamente de um inimigo.

Ela vivia numa colônia obcecada por pureza religiosa, controle moral e medo do corpo. Os puritanos da Nova Inglaterra não estavam interessados em compreender espiritualidade. Eles estavam interessados em disciplinar comportamentos. E nada disciplinava melhor do que o terror.

Quando as acusações de bruxaria começaram em Salem, Tituba era o alvo perfeito. Falava diferente. Tinha outra origem. Conhecia práticas espirituais que não vinham da Bíblia. Tudo nela era lido como ameaça.

Mas o ponto mais cruel da história não é a acusação.

É a confissão.

Diferente das mulheres brancas acusadas, que muitas vezes negavam até o fim, Tituba falou. E falou muito. Descreveu espíritos, animais, voos, pactos, visões. Criou exatamente a narrativa que os juízes queriam ouvir.

Não porque acreditasse naquele teatro demonológico europeu.

Mas porque entendeu o sistema antes que ele a destruísse.

A confissão de Tituba foi uma estratégia de sobrevivência. No contexto inquisitorial, confessar não significava assumir culpa. Significava adiar a morte. As mulheres que confessavam viravam instrumentos do tribunal. As que negavam viravam exemplo.

Tituba precisou traduzir seu mundo espiritual indígena — baseado em natureza, espírito e relação — para a linguagem grotesca que os puritanos reconheciam: o diabo europeu.

Ela virou monstro para não virar cadáver.

A partir desse momento, o sistema fez o que sempre faz: usou o corpo indígena como prova viva de sua própria paranoia. Tudo o que Tituba dizia era tratado como confirmação de que o mal existia. Nunca como evidência de violência cultural, escravidão ou apagamento.

Tituba não foi executada. Mas isso não é misericórdia. É cálculo.

Ela foi mantida viva enquanto serviu como engrenagem do terror.

E depois disso, desapareceu dos registros.

Sem rosto.

Sem destino final claro.

Sem restituição histórica.

Tituba representa algo que a História tenta esconder: nas Américas, a caça às bruxas foi também uma arma colonial. Não se tratava apenas de fé. Tratava-se de esmagar saberes não europeus, especialmente quando carregados por mulheres.

Ela não foi acusada porque fazia magia.

Foi acusada porque existia fora do modelo europeu de mundo.

E como sempre, o sistema chamou isso de bruxaria.


Fontes:

KARLSEN, Carol F. The Devil in the Shape of a Woman. W.W. Norton & Company, 1987.

LEVACK, Brian P. The Witch-Hunt in Early Modern Europe. Routledge, 3rd ed., 2006.

ROSENTHAL, Bernard. Salem Story: Reading the Witch Trials of 1692. Cambridge University Press, 1993.

NORTON, Mary Beth. In the Devil’s Snare: The Salem Witchcraft Crisis of 1692. Vintage Books, 2003.



 
 
 

Comentários


  • Whatsapp
  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Instagram Branco

©por Josi Taróloga

bottom of page