
As Bruxas do passado: "Pesesht"
- JOSI CARTOMANTE
- 5 de jan.
- 2 min de leitura
Muito antes de a palavra “bruxa” existir, antes de fogueiras, antes de tribunais religiosos, houve mulheres que detinham um poder silencioso: o poder sobre a vida.
Peseshet foi uma delas.
Ela viveu no Egito Antigo, por volta de 2400 a.C., durante a VI Dinastia. Um tempo em que o corpo não era separado do sagrado, e a cura não era apenas técnica — era ritual, observação e responsabilidade espiritual.
O nome de Peseshet não chegou até nós por lenda.
Chegou por pedra.
Seu título está registrado na mastaba de Akhethotep, em Gizé: “Supervisora das mulheres médicas”. Não parteira informal. Não ajudante. Chefe. Supervisora. Educadora de outras mulheres que cuidavam do nascimento, do corpo feminino e da sobrevivência.
Isso, por si só, já diz muito.
No Egito Antigo, trazer uma criança ao mundo era atravessar uma fronteira perigosa. O parto era visto como um momento liminar, onde vida e morte se tocavam. Quem dominava esse saber precisava conhecer o corpo, os fluidos, os ciclos, as complicações — e também os deuses, os encantamentos, os ritos de proteção.
Peseshet sabia tudo isso.
Ela operava onde o Estado não entrava e onde os sacerdotes raramente ousavam permanecer por muito tempo: no corpo feminino aberto, vulnerável, sangrando, criando vida. Ali, a cura não era abstrata. Era urgente.
O que hoje chamamos de medicina, naquele tempo era inseparável da magia. Textos médicos egípcios misturam diagnósticos precisos com fórmulas verbais, amuletos, invocações e observação empírica. Não havia contradição. Havia eficácia.
Mas há algo importante aqui:
Peseshet nunca foi chamada de bruxa em seu tempo.
Ela foi respeitada.
O rótulo veio depois. Veio quando o saber feminino passou a incomodar. Quando a medicina deixou de ser transmitida entre mulheres e passou a ser institucionalizada, masculina, controlada. Foi aí que o conhecimento sobre parto, ervas, ciclos e cura começou a ser tratado como suspeito.
O que antes era sobrevivência virou perigo.
O que antes era saber virou ameaça.
Peseshet não foi queimada!
Mas foi lentamente apagada.
Se hoje sabemos seu nome, é porque a pedra resistiu mais do que a narrativa posterior. Resistiu à tentativa de fingir que mulheres nunca lideraram o cuidado com a vida.
Depois de Ericto, que lidava com os mortos, Peseshet nos lembra do outro extremo do proibido: a mulher que sabe fazer viver. E isso, ao longo da história, sempre foi tão perigoso quanto a necromancia.
Fontes históricas para quem quiser pesquisar
Inscrição da mastaba de Akhethotep (VI Dinastia, Gizé)
John F. Nunn – Ancient Egyptian Medicine
Paul Ghalioungui – Magic and Medical Science in Ancient Egypt
Thierry Bardinet – Les papyrus médicaux de l’Égypte pharaonique



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