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As Bruxas do passado: "Maria da Conceição"

  • Foto do escritor: JOSI CARTOMANTE
    JOSI CARTOMANTE
  • 6 de jan.
  • 2 min de leitura

Maria da Conceição – A bruxa negra que o Brasil tentou apagar

Quando se fala em bruxaria, o imaginário popular ainda insiste em olhar para a Europa. Fogueiras, tribunais, pactos demoníacos, sabás. Mas no Brasil, a perseguição às mulheres que sabiam lidar com cura, palavra e espírito tomou outra forma. Aqui, a bruxa não era queimada. Ela era silenciada, escravizada, castigada ou invisibilizada.

Maria da Conceição não foi uma única mulher no sentido biográfico moderno. Esse nome aparece repetidas vezes em registros inquisitoriais, eclesiásticos e coloniais dos séculos XVII e XVIII, associado a mulheres negras, escravizadas ou libertas, acusadas de feitiçaria, curandeirismo, adivinhação e práticas espirituais consideradas ilícitas.

E isso não é coincidência.

“Maria” era o nome imposto.

“Conceição” vinha da catequese.

O apagamento começava no batismo forçado.

Essas Marias da Conceição atuavam nos bastidores da sociedade colonial. Curavam com ervas, faziam rezas misturando catolicismo popular, conhecimentos africanos e práticas indígenas. Lidavam com parto, doença, impotência, abandono amoroso, proteção espiritual. Faziam o que o sistema não fazia — e cobravam pouco ou nada por isso.

Isso era intolerável.

Nos registros do Santo Ofício, Maria da Conceição surge como “feiticeira”, “benzedeira suspeita”, “mulher que engana o povo”, “negra dada a superstições”. As acusações raramente descrevem um ritual específico com precisão. O crime não era um feitiço concreto. O crime era existir fora do controle religioso e senhorial.

Diferente da Europa, o Brasil não montou grandes fogueiras públicas. Aqui, a punição era mais silenciosa e mais cruel. Prisões, açoites, exílio, perda de proteção, retorno forçado à escravidão, separação de filhos, vigilância constante. A bruxa brasileira era esmagada no cotidiano.

Maria da Conceição representa a bruxa estrutural do Brasil. A mulher negra que carregava conhecimento espiritual, mas não tinha direito à própria voz. Tudo o que fazia era reinterpretado como crime, superstição ou engano diabólico. Nada era registrado como saber legítimo.

E mesmo assim, essas mulheres continuaram.

Elas são o embrião do que depois seria chamado de:

benzedeiras

curandeiras

mães de santo

rezadeiras

mulheres de axé

A bruxaria brasileira não morreu. Ela se adaptou ao cativeiro!

Maria da Conceição não virou mártir. Não virou santa. Não virou mito folclórico. E é exatamente por isso que sua história importa. Ela representa milhares de mulheres que sustentaram espiritualmente este país enquanto eram acusadas de corrompê-lo.

Falar de Maria da Conceição é olhar para a bruxaria sem romantização. É entender que, no Brasil, o medo não vinha do diabo. Vinha do corpo negro feminino que curava, aconselhava e escapava do controle absoluto.

Ela não foi queimada.

Ela foi apagada.

E lembrar seu nome — mesmo que genérico, mesmo que imposto — é um ato de reparação histórica.


Fontes:

MOTT, Luiz. Feitiçaria e Inquisição no Brasil Colonial. Editora Ática, 1994.

SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e Religiosidade Popular no Brasil Colonial. Companhia das Letras, 1986.

VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: Moral, Sexualidade e Inquisição no Brasil. Companhia das Letras, 1997.

Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa).

Processos do Santo Ofício referentes ao Brasil Colonial, séculos XVII e XVIII.


 
 
 

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©por Josi Taróloga

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