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As Bruxas do passado: "Jeanne de Brigue"

  • Foto do escritor: JOSI CARTOMANTE
    JOSI CARTOMANTE
  • 6 de jan.
  • 2 min de leitura

Jeanne de Brigue não viveu no auge da Inquisição. E isso é justamente o que torna sua história tão importante.

Ela foi julgada em 1390, num período em que a Europa ainda estava aprendendo a odiar oficialmente as mulheres que sabiam demais.

Jeanne era uma mulher comum. Não era nobre, não era freira, não era protegida por nenhum título. Vivia entre o povo e exercia práticas que hoje chamaríamos de magia popular: curas, rezas, encantamentos, diagnósticos espirituais. O tipo de saber feminino que sempre existiu — e sempre incomodou.

O problema começou quando esse saber deixou de ser tolerado e passou a ser visto como ameaça.

Durante seu processo, Jeanne foi acusada de manter relações com espíritos, de realizar feitiços e, principalmente, de ter feito um pacto demoníaco. O que chama atenção não é apenas a acusação, mas o nível de detalhe presente nos registros. Ela descreve entidades, rituais, invocações. Não porque fosse uma “bruxa poderosa de grimório”, mas porque foi pressionada a falar exatamente aquilo que os juízes queriam ouvir.

Aqui nasce um ponto crucial da história da bruxaria:

a confissão deixa de ser verdade e passa a ser roteiro.

Jeanne não inaugura a Inquisição, mas antecipa seu método.

Ela é uma das primeiras mulheres a ser moldada dentro do arquétipo da bruxa diabólica — aquela que não apenas faz magia, mas serve ao mal, transgride a ordem divina e ameaça o controle religioso.

E isso não surge do nada.

A Europa do final do século XIV estava em crise. Guerras, fome, peste, instabilidade política. Sempre que o mundo entra em colapso, alguém precisa ser culpado. E quase sempre esse alguém é uma mulher que não se encaixa, que não se submete, que não se cala.

Jeanne de Brigue não foi queimada como muitas que vieram depois. Mas ela foi marcada. Seu processo ajudou a criar o modelo jurídico e simbólico que, décadas mais tarde, seria usado para justificar milhares de execuções.

Ela representa o momento exato em que a bruxa deixa de ser apenas a curandeira estranha da aldeia e passa a ser vista como inimiga do sistema.

Não porque fosse perigosa.

Mas porque era autônoma.

Jeanne de Brigue não é lembrada como heroína, nem como mártir. E talvez isso seja o mais cruel. Ela ficou registrada apenas como um aviso:

“é assim que lidamos com mulheres que sabem demais”.

E é por isso que ela precisa ser lembrada.



Fontes:

KIECKHEFER, Richard. European Witch Trials: Their Foundations in Popular and Learned Culture, 1300–1500. University of California Press, 1976.

BAILEY, Michael D. Battling Demons: Witchcraft, Heresy, and Reform in the Late Middle Ages. Pennsylvania State University Press, 2003.

COHN, Norman. Europe’s Inner Demons: An Enquiry Inspired by the Great Witch-Hunt. Sussex University Press, 1975.

Quando quiser, seguimos com a próxima da série As Bruxas do Passado.


 
 
 

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©por Josi Taróloga

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