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As Bruxas do passado: "Isobel Gowdie"

  • Foto do escritor: JOSI CARTOMANTE
    JOSI CARTOMANTE
  • 6 de jan.
  • 2 min de leitura

Isobel Gowdie viveu na Escócia do século XVII, um dos ambientes mais violentos e paranoicos da história da caça às bruxas. Diferente de outros lugares da Europa, a perseguição escocesa foi marcada por um grau extremo de obsessão religiosa, medo coletivo e literalismo bíblico. Era um mundo onde qualquer desvio podia ser interpretado como pacto com o diabo.

Isobel não era nobre, não era curandeira famosa, não era líder comunitária. Era uma mulher comum. E talvez exatamente por isso sua história seja tão perturbadora.

Em 1662, Isobel Gowdie apresentou-se voluntariamente às autoridades e começou a confessar. Não houve tortura registrada. Não houve pressão física documentada. Ela simplesmente falou. E falou muito.

Suas confissões são consideradas as mais detalhadas de toda a história da bruxaria europeia.

Ela descreveu pactos com o diabo, encontros noturnos, transformações em animais, voos mágicos, maldições lançadas sobre pessoas e gado, rituais completos, fórmulas verbais e até versos encantatórios. Tudo com uma riqueza simbólica que atravessou séculos.

E aqui está o ponto central:

Isobel não apenas confessou. Ela construiu uma cosmologia inteira.

Suas palavras parecem menos um interrogatório e mais um relato mitológico. Há precisão, repetição, estrutura. Para alguns historiadores, isso indica delírio religioso. Para outros, internalização profunda do discurso demonológico da época. E para alguns poucos, um raro vislumbre do imaginário mágico popular que nunca foi escrito em grimórios.

Isobel falava a língua que o sistema queria ouvir.

Mas também falava demais para ser apenas uma vítima passiva.

Ela não se limitou a dizer “sou culpada”. Ela explicou como, quando, por quê e com quem. Isso desafia a ideia simples de confissão forçada. Sua fala parece brotar de um mundo simbólico já existente dentro dela.

E isso assusta.

Porque Isobel Gowdie não foi apenas acusada de bruxaria. Ela acreditava no universo que descrevia. O diabo, para ela, não era uma abstração teológica. Era uma presença concreta. A magia não era metáfora. Era prática, linguagem, imaginação ativa.

O destino final de Isobel não é registrado com precisão. Provavelmente foi executada, como quase todas as pessoas acusadas nesse contexto. Mas o mais importante é que sua morte não silenciou sua voz. Pelo contrário. Ela atravessou o tempo como um arquivo vivo do medo, da fé distorcida e da psicologia coletiva de uma sociedade em colapso espiritual.

Isobel Gowdie nos obriga a encarar uma verdade desconfortável:

nem toda “bruxa” era apenas vítima inocente de um sistema cruel. Algumas estavam tão imersas no imaginário da época que participavam dele, mesmo que isso as destruísse.

Ela não foi apenas perseguida.

Ela foi engolida por um mundo que ensinou mulheres a nomear seus próprios demônios — e depois as matou por isso.

Isobel não representa resistência silenciosa, como Biddy Early.

Ela representa o colapso entre crença, culpa e identidade.

E por isso sua história é uma das mais difíceis de ler.

E uma das mais importantes de lembrar.


Fontes:

HENDERSON, Lizanne; COWAN, Edward J. Scottish Fairy Belief: A History. Tuckwell Press, 2001.

LEVACK, Brian P. The Witch-Hunt in Early Modern Europe. Routledge, 3rd ed., 2006.

MAXWELL-STUART, P. G. Satan’s Conspiracy: Magic and Witchcraft in Sixteenth-Century Scotland. Tuckwell Press, 2001.

PURKISS, Diane. The Witch in History: Early Modern and Twentieth-Century Representations. Routledge, 1996.


 
 
 

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©por Josi Taróloga

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