
As Bruxas do passado: "Biddy Early"
- JOSI CARTOMANTE
- 6 de jan.
- 2 min de leitura
Biddy Early viveu num tempo em que a palavra “bruxa” já não levava automaticamente à fogueira, mas ainda era suficiente para destruir uma reputação, isolar uma mulher e colocá-la sob vigilância constante. Estamos falando da Irlanda do século XIX, profundamente católica, empobrecida, marcada pela fome e submetida ao controle moral da Igreja.
Biddy não era uma revolucionária política nem alguém interessada em confronto religioso. Ela era algo muito mais perigoso para a ordem estabelecida: uma mulher que curava sem pedir autorização.
Morava no interior do condado de Clare e atendia pessoas comuns. Camponeses, doentes, mulheres desesperadas, famílias sem recursos. Usava ervas, rezas antigas, práticas populares de cura e um objeto que se tornaria lendário: uma garrafa escura, que segundo o imaginário popular lhe revelava a origem do mal e o caminho para a cura.
A Igreja rejeitava esse tipo de prática.
Mas o povo confiava.
E esse é o ponto central da história de Biddy Early. Diferente de muitas mulheres perseguidas ao longo da história, ela não foi abandonada pela comunidade. Quando padres tentaram desacreditá-la, quando médicos a chamaram de supersticiosa, quando autoridades tentaram silenciá-la, o povo permaneceu ao lado dela.
Não porque acreditassem em pactos demoníacos.
Mas porque ela funcionava.
Biddy curava onde a medicina falhava. Ouvia onde a Igreja julgava. Ajudava sem cobrar o que ninguém podia pagar. Isso, dentro de um sistema baseado em hierarquia e controle, era intolerável.
Ela chegou a ser denunciada formalmente, investigada e interrogada. Tentaram enquadrá-la como ameaça moral e promotora de superstições perigosas. Nenhuma acusação prosperou. Faltava o elemento essencial para a perseguição funcionar: o isolamento social.
Biddy Early não vivia à margem.
Ela estava no centro da vida comunitária.
E isso desmonta um mito comum sobre a bruxaria: nem toda mulher considerada “bruxa” foi derrotada. Nem toda perseguição venceu. Algumas sobreviveram porque eram indispensáveis demais para serem silenciadas.
Biddy envelheceu, continuou atendendo, continuou sendo procurada e morreu respeitada pelo povo e incômoda para as autoridades. Seu nome atravessou o tempo não como símbolo do mal, mas como lembrança de um saber popular que resistiu à repressão religiosa.
Ela prova que a bruxaria não terminou com a Inquisição.
Ela apenas mudou de forma, de linguagem e de estratégia.
E, em alguns casos, venceu.
Fontes:
LOGAN, Patrick. The Holy Wells of Ireland. Appletree Press, 1980.
O’SULLIVAN, Tadhg. Folk Medicine and Healers of County Clare. Irish Folklore Commission Archives.
DANAHER, Kevin. The Year in Ireland. Mercier Press, 1972.
HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. Oxford University Press, 1999.



Comentários