
As Bruxas do passado: "Barbara dos Prazeres"
- JOSI CARTOMANTE
- 6 de jan.
- 2 min de leitura
Bárbara dos Prazeres – A bruxa que cruzou o Atlântico
Bárbara dos Prazeres viveu no século XVIII, dentro do mundo luso-brasileiro marcado pela vigilância religiosa, pelo controle da sexualidade feminina e pela perseguição sistemática a práticas espirituais não autorizadas. Diferente de muitas mulheres apagadas pelo silêncio, Bárbara deixou rastros claros nos registros da Inquisição portuguesa, o que permite compreender como a feitiçaria operava entre o Brasil e Portugal como parte de um mesmo sistema colonial.
Ela não era uma mulher isolada. Circulava entre pessoas, cidades e portos. Levava consigo práticas mágicas populares que misturavam rezas, encantamentos, adivinhações e feitiços amorosos. Seu crime não foi inventar algo novo. Foi manter viva uma tradição feminina de intervenção no desejo, no destino e na sorte.
Nos processos inquisitoriais, Bárbara aparece acusada de:
fazer feitiços para atrair ou prender amantes
realizar adivinhações
utilizar objetos ritualizados
invocar forças espirituais fora da ortodoxia católica
Nada disso era incomum. O que incomodava era o efeito social dessas práticas. A magia amorosa, em especial, atingia diretamente o pilar da sociedade colonial: o controle masculino sobre o corpo e as escolhas das mulheres.
Bárbara dos Prazeres não atuava nos extremos da miséria, como muitas benzedeiras escravizadas. Ela transitava em ambientes urbanos, atendendo mulheres e homens que buscavam solução para conflitos afetivos, traições, abandono e desejo não correspondido. Sua magia era íntima, prática e direcionada — exatamente o tipo de feitiçaria que a Inquisição mais temia.
Ao ser denunciada, o discurso inquisitorial tentou enquadrá-la dentro do modelo clássico de feitiçaria europeia: pactos demoníacos, engano do povo, corrupção moral. Mas os próprios registros revelam algo diferente. Não há sabás grandiosos, nem rituais espetaculares. Há uma mulher trabalhando com desejo, medo e esperança.
A perseguição a Bárbara dos Prazeres mostra como o Brasil não estava à margem da Inquisição. Pelo contrário. As práticas mágicas que nasciam ou circulavam na colônia eram levadas à metrópole, julgadas e reprimidas dentro do mesmo sistema jurídico-religioso. A feitiçaria atravessava o oceano junto com o açúcar, o ouro e os corpos.
Bárbara foi punida, vigiada e silenciada. Seu destino não foi a fogueira, mas o desgaste contínuo da reputação, da autonomia e da liberdade. Ela representa a bruxa urbana brasileira, aquela que operava no campo do desejo e da palavra, e por isso se tornava extremamente perigosa para a ordem moral.
Ela não foi acusada por matar crianças ou provocar pestes.
Foi acusada por interferir nos afetos.
E isso, para a Inquisição, era intolerável.
Bárbara dos Prazeres nos lembra que a bruxaria no Brasil colonial não era apenas cura ou proteção. Também era poder simbólico sobre o amor, o corpo e a escolha. Um poder que o sistema precisava arrancar das mãos femininas.
Ela não virou lenda.
Virou processo.
E é justamente por isso que sua história precisa ser contada.
Fontes:
SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e Religiosidade Popular no Brasil Colonial. Companhia das Letras, 1986.
VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: Moral, Sexualidade e Inquisição no Brasil. Companhia das Letras, 1997.
MOTT, Luiz. Feitiçaria e Inquisição no Brasil Colonial. Editora Ática, 1994.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa).
Processos do Santo Ofício referentes a práticas mágicas femininas no mundo luso-brasileiro, século XVIII.



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