A inquisição nunca acabou!
- JOSI CARTOMANTE
- 5 de jan.
- 3 min de leitura
Se você tiver um olhar atento, irá perceber que aqueles padres do passado reencarnaram e estão dentro dos templos de umbanda, quimbanda, candomblé, entre os magistas, feiticeiros e bruxas de uma forma geral.
A inquisição nunca acabou!!!!
Gente que deveria entender o peso do sagrado está repetindo exatamente o mesmo comportamento que sempre condenou.
O cenário é triste e, sinceramente, revoltante. Sacerdotes atacando sacerdotes. Bruxos caçando bruxos. Casas tentando destruir outras casas. Pessoas usando tradição, ancestralidade e cargo espiritual como arma para humilhar, expor, difamar e perseguir. Tudo isso em nome de “fundamento”, “verdade”, “tradição correta” ou “espiritualidade séria”.
O discurso muda, mas a lógica é a mesma de sempre: “eu sou legítimo, você não é”. “O meu caminho é verdadeiro, o seu é falso”. “O meu orixá aceita, o seu não”. “A minha magia funciona, a sua é charlatanismo”. E assim se constrói um tribunal invisível onde ninguém está realmente interessado em ensinar, orientar ou proteger tradição nenhuma — o interesse é destruir o outro.
As redes sociais viraram o novo barracão de fofoca, o novo terreiro de disputa de ego, o novo círculo mágico onde se invoca não espírito, mas ódio. Print vira prova, vídeo editado vira sentença, boato vira verdade absoluta. E quem está do outro lado não é uma abstração: é uma pessoa real, com família, com casa espiritual, com vida, com história.
O mais contraditório é ver isso vindo de caminhos que falam tanto de axé, de ancestralidade, de comunidade, de respeito ao mais velho, de ética espiritual. Porque se tem uma coisa que os antigos sabiam é que poder espiritual sem caráter vira veneno. E hoje o que mais se vê é veneno sendo espalhado em nome do sagrado.
Não é sobre zelo com a tradição. Tradição de verdade se sustenta sozinha. Não precisa atacar ninguém para existir. O que está acontecendo é disputa de poder, vaidade, insegurança e medo de perder espaço. É gente usando santo, entidade, oráculo e grimório como escudo para justificar atitudes que, se fossem feitas fora da religião, seriam claramente vistas como abuso.
E o resultado disso é devastador. Pessoas adoecendo. Casas sendo fechadas. Caminhos espirituais sendo abandonados. Gente com medo de estudar, de praticar, de ensinar, de existir espiritualmente. Isso não fortalece religião nenhuma. Isso não protege fundamento nenhum. Isso só reproduz o mesmo ciclo de violência que sempre destruiu saberes espirituais ao longo da história.
É literalmente bruxo matando bruxo. Não com faca, mas com palavras, acusações, exposição pública e perseguição contínua. É uma morte simbólica, mas não menos cruel. Porque quando você destrói a reputação espiritual de alguém, você destrói trabalho, vínculos, fé e identidade.
Se a espiritualidade que alguém pratica precisa destruir outra pessoa para se afirmar, então o problema não está no outro caminho — está nesse.
Questionar isso não é desrespeitar religião nenhuma. É chamar responsabilidade. É lembrar que tradição não é desculpa para crueldade e que espiritualidade sem ética vira só palco de ego inflado.
Se os antigos voltassem hoje, muitos ficariam horrorizados. Não com a mistura de caminhos, não com a modernidade, mas com a falta de humanidade. Porque fundamento sem respeito vira autoritarismo, e autoritarismo sempre foi o verdadeiro inimigo do sagrado.
A Inquisição não acabou.
Ela só aprendeu novos nomes, novas roupas e novas plataformas.
E enquanto a espiritualidade continuar se devorando por dentro, quem perde não é “o outro”. Somos todos nós.
J.F.R.C



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